Bahia

Pelourinho além do cartão-postal: quem ainda mora no coração histórico de Salvador

Aline Santana Aline Santana · Editora 2026-05-18 Atualizado: 2026-05-19
Pelourinho além do cartão-postal: quem ainda mora no coração histórico de Salvador

Enquanto turistas fotografam as fachadas coloridas, uma comunidade resistente insiste em chamar o Pelourinho de lar.

Tem uma coisa que os guias turísticos não mostram: o Pelourinho às seis da manhã. Antes dos vendedores de cocada, antes dos grupos de capoeira para turistas, antes das câmeras. Nesse horário, o bairro pertence a quem realmente vive ali — os poucos que resistiram a décadas de reformas, especulação imobiliária e gentrificação disfarçada de preservação histórica.

Dona Conceição tem 74 anos e mora na mesma casa da Rua Alfredo Brito desde que nasceu. Sua mãe nasceu ali também. "Minha avó veio de fora, mas eu sou daqui", ela me diz, enquanto varre a calçada de pedra portuguesa com uma vassoura de palha. "Já tentaram me tirar três vezes. Não saí."

A reforma que expulsou mais do que restaurou

A grande reforma do Pelourinho nos anos 1990, que transformou o bairro em patrimônio mundial da UNESCO e em atração turística internacional, também deslocou milhares de moradores. Muitos foram para conjuntos habitacionais na periferia, longe do centro histórico que suas famílias habitavam há gerações.

Os que ficaram — ou que voltaram — vivem numa tensão permanente entre o valor histórico do lugar e as pressões econômicas que esse valor gera. Aluguéis subiram. Serviços básicos são irregulares. O bairro é bonito para quem passa, mas difícil para quem fica.

Resistência e reinvenção

Mas o Pelourinho nunca foi apenas um cenário. É um lugar vivo, com contradições e criatividade. As mesmas ruas que recebem grupos de axé para turistas também abrigam ensaios de blocos afro que existem há décadas. Os mesmos sobrados que viraram pousadas ainda têm apartamentos onde famílias criam filhos e netos.

Dona Conceição não tem planos de sair. "Quando eu morrer, minha filha fica. E a filha dela depois." Ela diz isso sem drama, como quem enuncia um fato geográfico. O Pelourinho tem muitas histórias. A dela é uma das que mais importam.


Aline Santana
Aline Santana
Editora

Jornalista baiana formada pela UFBA. Cresceu no bairro do Pelourinho e cobre Salvador há quinze anos, com foco em cultura popular e movimentos comunitários.

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