Carnaval fora de época: como os blocos afro mantêm a cultura viva o ano todo
Para o Ilê Aiyê, o Olodum e outros blocos históricos, o carnaval é o resultado de doze meses de trabalho cultural e comunitário.
Fevereiro acabou, as fantasias foram guardadas, o confete foi varrido. Para a maioria das pessoas, o carnaval terminou. Para os blocos afro de Salvador, ele nunca para.
Visitei a sede do Ilê Aiyê num sábado de abril — três meses depois do carnaval, dois meses antes dos primeiros ensaios da próxima temporada. A quadra estava cheia. Crianças aprendendo percussão. Adolescentes em aula de dança. Mulheres costurando fantasias. Homens discutindo o tema do próximo carnaval, que já estava sendo pesquisado, debatido e documentado.
Mais do que festa
Os blocos afro nasceram nos anos 1970 como resposta à exclusão do carnaval oficial de Salvador, que na época era dominado por trios elétricos e blocos que não refletiam a identidade da maioria negra da cidade. O Ilê Aiyê, fundado em 1974, foi pioneiro: um bloco que só aceitava negros, que celebrava a cultura africana e que usava o carnaval como plataforma de afirmação identitária.
Cinquenta anos depois, essa missão continua — e se expandiu. Os blocos afro são hoje centros culturais, escolas de música, produtoras de moda afro e organizações comunitárias que atendem bairros inteiros. O carnaval é a vitrine, mas o trabalho é o ano todo.
"A gente não faz carnaval", me disse um dos coordenadores do Ilê. "A gente faz cultura. O carnaval é só o momento em que todo mundo vê."