Cultura

Carnaval fora de época: como os blocos afro mantêm a cultura viva o ano todo

Jorge Mascarenhas Jorge Mascarenhas · Repórter 2026-04-10 Atualizado: 2026-04-11
Carnaval fora de época: como os blocos afro mantêm a cultura viva o ano todo

Para o Ilê Aiyê, o Olodum e outros blocos históricos, o carnaval é o resultado de doze meses de trabalho cultural e comunitário.

Fevereiro acabou, as fantasias foram guardadas, o confete foi varrido. Para a maioria das pessoas, o carnaval terminou. Para os blocos afro de Salvador, ele nunca para.

Visitei a sede do Ilê Aiyê num sábado de abril — três meses depois do carnaval, dois meses antes dos primeiros ensaios da próxima temporada. A quadra estava cheia. Crianças aprendendo percussão. Adolescentes em aula de dança. Mulheres costurando fantasias. Homens discutindo o tema do próximo carnaval, que já estava sendo pesquisado, debatido e documentado.

Mais do que festa

Os blocos afro nasceram nos anos 1970 como resposta à exclusão do carnaval oficial de Salvador, que na época era dominado por trios elétricos e blocos que não refletiam a identidade da maioria negra da cidade. O Ilê Aiyê, fundado em 1974, foi pioneiro: um bloco que só aceitava negros, que celebrava a cultura africana e que usava o carnaval como plataforma de afirmação identitária.

Cinquenta anos depois, essa missão continua — e se expandiu. Os blocos afro são hoje centros culturais, escolas de música, produtoras de moda afro e organizações comunitárias que atendem bairros inteiros. O carnaval é a vitrine, mas o trabalho é o ano todo.

"A gente não faz carnaval", me disse um dos coordenadores do Ilê. "A gente faz cultura. O carnaval é só o momento em que todo mundo vê."


Jorge Mascarenhas
Jorge Mascarenhas
Repórter

Fotógrafo e escritor. Percorreu o Recôncavo Baiano documentando festas populares, culinária tradicional e transformações urbanas nas cidades do interior.

Leia também